domingo, 27 de novembro de 2022

O noticiário e a lavagem dos porcos

Recebi muitos conselhos estúpidos durante a educação escolar, mas talvez o pior deles seja o de desenvolver o mau hábito de acompanhar os noticiários. Há quem acredite que ali se encontra informações relevantes que ajudar-lhe-ão a agir no presente e a antecipar-se aos desafios do futuro. Que grande piada, não é memso?

As chaves do futuro encontrar-se-ão nas Sagradas Escrituras, nos sinais da Criação, no avanço da técnica, na profeciais dos santos e nas palavras dos sábios; procure o leitor, inultimente, tais temas no noticiário - impresso, televiso ou em algum portal da internet - nada há de encontrar; em seu lugar encontrará fofocas sobre a vida privada de personagens repugnantes a que hoje se chama celebridades, o jogo sujo da política contemporânea e informações sobre crimes bárbaros e brutais. A tecnologia, quando mencionada no mundo mainstream, é sempre com décadas de atraso e sobre um viéis de uma ignorância caipira... É uma estupidez dispendiar tempo lendo esse tipo de bobagem - que é a mídia de massas -  e um caso grave de deficiência mental e desvio moral o financiar este tipo de lixo.

"Então devo alienar-me do mundo?", sim, é exatamente isso que proponho. Aparte-se do ambiente cultural e mental desta era iníqua e desenvolva por si mesmo suas pesquisas; escolha os temas que para si são relevantes, aparte-se do rebanho. Tens coragem para isso? Ou vai se sentir solitário se não puder emitir opiniões vãs sobre assuntos inúteis que permieam as discussões públicas da semana?

domingo, 13 de novembro de 2022

Cristandade Ancap

Após o chamado de Deus, Abraão deixou a cidade de Ur acompanhando por sua esposa, seus servos e seu sobrinho Lot, vagando pelos desertos até Canaã, a terra que o Senhor lhe prometeu. Essa é a imagem bíblica mais próxima que temos de algo como o ancapistão: um homem rico vagando pelo mundo com seus bens, não subordinado a Estado algum, o Patriarca que governa sua casa sujeito tão somente aos leis do Senhor seu Deus. Tais configurações e manteriam por duas gerações, nem Isaac nem Jacó estavam ligados a algo como uma pátria, um governo, um Estado Nação, mas eis que veio a fome sobre aquela terra e a casa de Israel imigrou para o Egito, donde ficaria sujeita ao governo dos faraós até Moisés. E daí para frente a história bíblica foi uma história estatal.

Samuel referiu todas as palavras do Senhor ao povo, que lhe tinha pedido um rei, e disse: Este será o direito do rei que vós há-de governar: Tomará os vossos filhos, pô-los-á nos seus carros, fará deles moços de cavalo, e correrão diante dos seus coches. Fará deles seus tribunos, seus centuriões, lavradores dos seus campos, segadores das suas messes e fabricantes das suas e carros. Fará de vossas filhas suas perfumadeiras, cozinheiras e padeiras. Tomará também o melhor dos vossos campos, das vossas vinhas, dos vossos olivais, e dá-los-á aos seus servos. Também tomará o dízimo dos vossos trigos e das vossas vinhas, para ter que dar aos seus eunucos e servos. Então clamareis ao Senhor, por causa do rei, que vós mesmos elegestes, mas o Senhor não vos ouvirá naquele dia, porque vós mesmos pedistes um rei. (1 Sm 8, 10-18)

Com a vinda de Cristo, eis algo novo! Ainda que Nosse Senhor seja rei, seu reino não é deste mundo. Rejeitada pela sinagoga e perseguida pelo império, a Igreja surge e se desenvolve a margem do Estado e das instituições oficiais. É um organismo não estatal multinacional, uma assembléia de pessoas que se unem e passam a contribuir coletivamente por livre espontânea vontade, sem qualquer coerção externa. Na verdade, até apesar da coerção externa: as cruéis torturas inflingidas pelo tirania dos césares romanos não foram capazes de abalar a vontade inquembrantável dos martíres. A Igreja vence o Estado, até que acaba fundindo-se com ele. E essa fusão moldará sua identidade nos séculos que se seguiram. O poder temporal, as estruturas da máquina estatal, a força do Leviatã, os recursos, as armas, tudo isso foi posto à serviço do Reino de Deus. Mas esse tempo acabou, cortaram a cabeça dos reis e expulsaram a Igreja da vida pública, e eis que é necesário reaprender a viver a margem do Estado.

Já são mais de 200 anos desde a Revolução Francesa, e todavia a maior parte dos fieís parece não ter aprendido a lidar com o assunto. Os progessistas (os quais nem considero eu católicos), procuram ceder na doutrina para ter parte na governança do mundo laico, os conservadores e tradicionalistas alimentam fantasias de restauração, e - flertam com tanta besteira... -  assim se afundam em lutas políticas cujos resultados são risíveis. Por que não abrir mão desse sonho de reconquistar o Estado e aprender viver a margem dele, minorar seu poder, numa espécie de Cristandade Ancap? Ainda que de fato o Estado Cristão seja um ideal, há que se fazer um bem bolado quando este ideal é hoje inalcançável, não?

Estou lendo recentemente um clássico cyberpunk chamado Snow Crash, fiquei maravilhado com universo descrito por Neal Stephenson:  as micronações que funcionam em esquema de condomínio, o metaverso, a dinâmica de uma economia hipercapitalista de plataforma, as armas (qual é o homem que não gosta de armas? Quem não tem espada, que venda sua túnica e compre uma! Aliás esse negócio de espada é algo meio vintage, porque não uma 38?), a forma como o indivíduo pode facilmente apartartar-se do destino das falhas escolhas coletivas e discernir seu próprio caminho.Tudo isso soa tão mais belo em um tempo onde a nação em que vivo se degradada tanto mais, a janela de liberdade é cada vez menor, e políticos bobocas alimentam devaneios comunistas cujo resultado não é outro senão a miséria. Haveria tantas oportunidades para Igreja em um futuro atlantista, aceleracionista, hipercapitalista, cyberpunk, além de que este cenário é bem mais factível que uma nova cristandade estatal...

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Depois de ler esse texto, na certa algum leitor estará tentado a enviar-me links de uns três ou quatro podcasts com duas horas de duração cada, argumentando sobre os erros do anarcocapitalismo e maldizer-me nas redes sociais. Convido-o a reler o texto com um pouco mais de senso de humor hihi, meu intento é menos pregar alguma ideologia ou modelo de sociedade, do que abrir a mente de meus irmãos de fé para pensar formas de ação para além da política e das instituições visíveis. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

TECHNO RACE

Não foi via decreto governamental ou ocupação de espaços - tampouco por consientização - que uma parcela razoável da população se livrou da lavagem cerebral televisa. Foi devido a internet. O surgimento de uma alternativa técnica que proporcionava maior grau de liberdade aos criadores de conteúdo e aos consumidores fez do mundo um lugar melhor... ao menos para alguns: enquanto há aqueles que usam da internet para estudar filosofia e religião ou simplesmente para se divertir jogando e assistindo animes de garotas fofas, outros se afundam em pornografia e perdem tempo com fofocas, discussão e maledicência.Sinto muito pelos apenados, mas a escolha foi deles.

Todavia, já faz algum tempo desde os primórdios da internet e essa joça não é mais a mesma. Os governos estendem seus tentáculos tirânicos afim de controlar a anarquia digital, com o auxílio das bigtechs. As massas se agitam inultimente no afã de encontrar alguma solução política, não só para isso mas para uma série de problemas que afligem esta civilização decrépita. Julgo eu coisa inútil. Melhoras que dependem de algum tipo de engajamento coletivo em instituições oficiais tem o infeliz costume de fracassar. Na esfera temporal, vejo eu uma única saída: a técnica. Tal qual ocorreu outrora, é preciso desenvolver alternativas tecnóligicas que garantam algum grau de liberdade ao usuário, em velocidade tamanha que tão logo as elites iníquas que nos governam tenham adquirido o domínimo da mesma técnica, possamos já estar em outro barco. Sim, é um eterno jogo de gato e rato, mas é isso ou a absoluta rendição.

De fato, nem todos recebemos do céus um talento particular para a inovação disruptiva. Gênios são coisa rara. Mas podemos caminhar a sombra dos gigantes, ser pioneiros no uso e investigação das técnicas já hoje disponíveis. E há não pouca coisa.

Pergunto a ti caro leitor, o que lhe parece mais prudente? Sair a rua levantando cartolina implorando a políticos bobocas para preservem a sua liberdade, ou tentar vencer a corrida tecnológica?