domingo, 26 de março de 2023

Mudança de endereço

 Os textos do Ruínas Protocolares, alguns textos do antigo Bunker Suburbano e meus novos textos serão postados no blog De Profundis: https://das-profundezas.blogspot.com/ .




quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Chá de ninfa?

Já é de noite no momento em que escrevo esse texto e até que o termine, creio que meu chá já esfriou. Dentre outras coisas, o chá de hortelã é recomendado para uma noite de sono tranquila, por suas propriedades calmantes. E este é justamente o tema desse texto: o chá ou mais especificamente a Hortelã.

Há uma antiga lenda grega que trata da origem desta planta: Minta ou Menta era uma ninfa que habitava no rio Cocito;  não uma ninfa qualquer, mas a mais bela de todas elas. Sua beleza era tamanha, que despertara a paixão de Hades, o rei dos mortos. Só que havia um probleminha... Nessa época Hades já era casado com Perséfone. Como os mitos gregos são uma servergonhice de fazer inveja a qualquer novela da Globo, Minta tornou-se amante de Hades e, não obstante, passou a gabar-se que este expulsaria a Perséfone e faria dela (Minta) sua esposa e rainha do submundo. É claro que a outra dona não gostou nada dessa história e ao descobrir o caso, amaldiçoou Minta transformando-a em uma planta: a menta[1]. Ou seja, esse cházinho que estou bebendo (ou infusão a depender de sua perspectiva teórica) um dia já foi uma bela waifuzinha que abalou o submundo. É claro que é apenas uma lenda boba, mas é divertido pensar a respeito, não? 

Voltando as propriedades medicinais do chá de hortelã (cujo nome científico é Mentha×piperita): ele é excelente no alívio dos gases intestinais, pois ele aumenta a secreção do suco digestivo e, com isso, reduz as contrações musculares estomacais. Sendo indicado para combater o inchaço e a flatulência. Outro uso interessante da erva é no alívio de náuseas e enjoos, justamente graças as propriedades que aliviam as contrações do estômago.  Li ainda que a hortelã é uma erva rica em antioxidantes, que ajudam a proteger e reparar as células dos danos causados por radicais livres[2], embora eu realmente não entenda nada disso... Ah, e minha avó dizia que era bom para gripe também! 

Seja como for, se a mitologia e a medicina não forem bons argumentos, saiba que o sabor da bebida é agradável e com um pouco de mel fica melhor ainda.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Heróis



4ª Semana do Advento | Segunda-feira
Primeira Leitura (Jz 13,2-7.24-25a)
Responsório Sl 70(71),3-4a.5-6ab.16-17 (R. cf. 8a)
Evangelho (Lc 1,5-25)

A liturgia de hoje narra o nascimento milagroso de dois heróis bíblicos: Sansão e João Batista. Ambos tiveram seu nascimento anunciado pelo anjo, ambos nascidos de mães estéreis. A Sansão coube libertar Israel das mãos dos filisteus, a João Batista foi dada a missão de pregar a penitência e a conversão as restos de Israel e preparar a vinda do Messias.

Embora, de fato, todos os homens são chamados a santidade e pela graça de Deus podem realizar obras admiráveis, alguns são especiais: nascem com um destino particular, uma missão; e da fidelidade dos mesmos a tal missão depende a salvação de muitos. Os antigos gregos, ainda que enebriados nas trevas do paganismo, tinham certa intuição a respeito desta realidade: Aquiles e Hércules - heróis de suas histórias - não eram simples humanos, mas semideuses. Os homens são escravos do destino, só com uma força de origem divina é que alguns podem como que transcender as possibilidades humanas e realizar obras grandiosas.

Rezemos para que o Senhor envie ao mundo heróis como Sansão e São João Batista. Gente feita como de que um barro especial, pois a situação em que nos metemos não pode ser superada por homens comuns. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Quebra de Monopólio



A única coisa que eu explícita e estrategicamente gostaria de impor é a fragmentação. - Nick Land

Por trás de meu entusiasmo ante o Oriente não há, pois, profundas razões históricas, sociológicas ou metafísicas, mas tão somente certo deleite estético e sobretudo um princípio básico da economia capitalista: a livre-concorrência. O Oriente se ergue como uma civilização alternativa ao Ocidente, um lugar com usos e costumes diversos, com um estilo próprio e influenciado por outros grupos de poder. De certo modo o mesmo se pode dizer da idealização que fazem os metropolitanos da vida interiorana, ou mesmo nossa nostalgia em relação ao passado, à outras eras e outras civilizações. Basciamente não se suporta mais vida nesta nova Sodoma, então, porque não recorrer a concorrência? Ainda que não haja uma migração de fato, o ter em vista outra perspectiva torna a vida mais leve e ajuda a preservar a sanidade. Imagine o quão angustiante seria viver sem alternativas, obrigado a suportar algo que lhe desagrade? Por isso eu considero a luta pela unidade uma das causas mais vis e perversas a qual alguém possa aderir e a fragmentação a mais nobre das batalhas. Sem entrar em devaneios metafísicos que possoam soar heréticos, sem transformar princípios em fetiches - imperativos kantianos - que venham a bagunçar tudo, mas falando de realidade humana concreta: unidade significa monopólio.


O Estado e suas instituições (escola e universidades) não devem ter o monopólio da educação. O Ocidente não deve ter o monopólio dos valores civilizaconais. As bigtechs não devem ter o monopólio do domínio da técnica. Não deve haver monopólios e consenso universal nem mesmo na ciência. O único monopólio lícito é o da Igreja, esta de fato tem o monopólio da salvação, mas ainda assim ela abriga em seu seio uma variedade imensa de grupos, perspectivas e estilos de se professar e viver a fé. Voltando as realidades profanas: Holywood não deve ter o monopólio do entretenimento, as mulheres ocidentais (sobretudo as feias e rodadas) não devem ter o monopólio sobre o destino dos homens ocidentais (o que não significa que eu esteja a defender coisas abomináveis como o pecado contra a natureza, mas sim o ir procurar sua esposinha no oriente ou viver o celibato). Enfim, você já entendeu o espírito, não? Quebrar monopólios e impulsionar alternativas, isso torna o mundo um lugar mais divertido, abre uma rota de fuga para escaparmos da escravidão moderna. Não deixemos que eles terminem Torre de Babel!

Ora toda terra tinha uma só língua e um mesmo modo de falar. Mas (os homens), tendo partido do oriente encontraram uma planíce na terra de Sennar e habitaram nela. Disseram uns para os outros: vinde, façamos tijolos e cozamo-los no fogo. E serviram-se de tijolos em vez de pedras, e de betume em vez de argamassa. Disseram ainda: vinde façamos para nós uma cidade e uma torre, cujo cimo chegue até ao céu, e tornemos célebre o nosso nome, antes que nos espalhemos por toda terra, O Senhor, porém, desceu a ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam, e disse: eis que são um só povo e têm todos a mesma língua; começaram a fazer esta obra, e não desestirão do seu intento, até que a tenham de todo executado. Vamos, pois, desçamos e confundamos de tal sorte a sua linguagem, que um não compreenda a palavra do outro. Assim o Senhor os dispersou daquele lugar por todos os países da terra, e cessaram de edificar a cidade. Por isso, lhe foi posto o nome de Babel, porque ái foi confundida a linguagem de toda a terra, e daí os espalhou o Senhor por todas as regiões. (Gn 11,1-9)

domingo, 27 de novembro de 2022

O noticiário e a lavagem dos porcos

Recebi muitos conselhos estúpidos durante a educação escolar, mas talvez o pior deles seja o de desenvolver o mau hábito de acompanhar os noticiários. Há quem acredite que ali se encontra informações relevantes que ajudar-lhe-ão a agir no presente e a antecipar-se aos desafios do futuro. Que grande piada, não é memso?

As chaves do futuro encontrar-se-ão nas Sagradas Escrituras, nos sinais da Criação, no avanço da técnica, na profeciais dos santos e nas palavras dos sábios; procure o leitor, inultimente, tais temas no noticiário - impresso, televiso ou em algum portal da internet - nada há de encontrar; em seu lugar encontrará fofocas sobre a vida privada de personagens repugnantes a que hoje se chama celebridades, o jogo sujo da política contemporânea e informações sobre crimes bárbaros e brutais. A tecnologia, quando mencionada no mundo mainstream, é sempre com décadas de atraso e sobre um viéis de uma ignorância caipira... É uma estupidez dispendiar tempo lendo esse tipo de bobagem - que é a mídia de massas -  e um caso grave de deficiência mental e desvio moral o financiar este tipo de lixo.

"Então devo alienar-me do mundo?", sim, é exatamente isso que proponho. Aparte-se do ambiente cultural e mental desta era iníqua e desenvolva por si mesmo suas pesquisas; escolha os temas que para si são relevantes, aparte-se do rebanho. Tens coragem para isso? Ou vai se sentir solitário se não puder emitir opiniões vãs sobre assuntos inúteis que permieam as discussões públicas da semana?

domingo, 13 de novembro de 2022

Cristandade Ancap

Após o chamado de Deus, Abraão deixou a cidade de Ur acompanhando por sua esposa, seus servos e seu sobrinho Lot, vagando pelos desertos até Canaã, a terra que o Senhor lhe prometeu. Essa é a imagem bíblica mais próxima que temos de algo como o ancapistão: um homem rico vagando pelo mundo com seus bens, não subordinado a Estado algum, o Patriarca que governa sua casa sujeito tão somente aos leis do Senhor seu Deus. Tais configurações e manteriam por duas gerações, nem Isaac nem Jacó estavam ligados a algo como uma pátria, um governo, um Estado Nação, mas eis que veio a fome sobre aquela terra e a casa de Israel imigrou para o Egito, donde ficaria sujeita ao governo dos faraós até Moisés. E daí para frente a história bíblica foi uma história estatal.

Samuel referiu todas as palavras do Senhor ao povo, que lhe tinha pedido um rei, e disse: Este será o direito do rei que vós há-de governar: Tomará os vossos filhos, pô-los-á nos seus carros, fará deles moços de cavalo, e correrão diante dos seus coches. Fará deles seus tribunos, seus centuriões, lavradores dos seus campos, segadores das suas messes e fabricantes das suas e carros. Fará de vossas filhas suas perfumadeiras, cozinheiras e padeiras. Tomará também o melhor dos vossos campos, das vossas vinhas, dos vossos olivais, e dá-los-á aos seus servos. Também tomará o dízimo dos vossos trigos e das vossas vinhas, para ter que dar aos seus eunucos e servos. Então clamareis ao Senhor, por causa do rei, que vós mesmos elegestes, mas o Senhor não vos ouvirá naquele dia, porque vós mesmos pedistes um rei. (1 Sm 8, 10-18)

Com a vinda de Cristo, eis algo novo! Ainda que Nosse Senhor seja rei, seu reino não é deste mundo. Rejeitada pela sinagoga e perseguida pelo império, a Igreja surge e se desenvolve a margem do Estado e das instituições oficiais. É um organismo não estatal multinacional, uma assembléia de pessoas que se unem e passam a contribuir coletivamente por livre espontânea vontade, sem qualquer coerção externa. Na verdade, até apesar da coerção externa: as cruéis torturas inflingidas pelo tirania dos césares romanos não foram capazes de abalar a vontade inquembrantável dos martíres. A Igreja vence o Estado, até que acaba fundindo-se com ele. E essa fusão moldará sua identidade nos séculos que se seguiram. O poder temporal, as estruturas da máquina estatal, a força do Leviatã, os recursos, as armas, tudo isso foi posto à serviço do Reino de Deus. Mas esse tempo acabou, cortaram a cabeça dos reis e expulsaram a Igreja da vida pública, e eis que é necesário reaprender a viver a margem do Estado.

Já são mais de 200 anos desde a Revolução Francesa, e todavia a maior parte dos fieís parece não ter aprendido a lidar com o assunto. Os progessistas (os quais nem considero eu católicos), procuram ceder na doutrina para ter parte na governança do mundo laico, os conservadores e tradicionalistas alimentam fantasias de restauração, e - flertam com tanta besteira... -  assim se afundam em lutas políticas cujos resultados são risíveis. Por que não abrir mão desse sonho de reconquistar o Estado e aprender viver a margem dele, minorar seu poder, numa espécie de Cristandade Ancap? Ainda que de fato o Estado Cristão seja um ideal, há que se fazer um bem bolado quando este ideal é hoje inalcançável, não?

Estou lendo recentemente um clássico cyberpunk chamado Snow Crash, fiquei maravilhado com universo descrito por Neal Stephenson:  as micronações que funcionam em esquema de condomínio, o metaverso, a dinâmica de uma economia hipercapitalista de plataforma, as armas (qual é o homem que não gosta de armas? Quem não tem espada, que venda sua túnica e compre uma! Aliás esse negócio de espada é algo meio vintage, porque não uma 38?), a forma como o indivíduo pode facilmente apartartar-se do destino das falhas escolhas coletivas e discernir seu próprio caminho.Tudo isso soa tão mais belo em um tempo onde a nação em que vivo se degradada tanto mais, a janela de liberdade é cada vez menor, e políticos bobocas alimentam devaneios comunistas cujo resultado não é outro senão a miséria. Haveria tantas oportunidades para Igreja em um futuro atlantista, aceleracionista, hipercapitalista, cyberpunk, além de que este cenário é bem mais factível que uma nova cristandade estatal...

***

Depois de ler esse texto, na certa algum leitor estará tentado a enviar-me links de uns três ou quatro podcasts com duas horas de duração cada, argumentando sobre os erros do anarcocapitalismo e maldizer-me nas redes sociais. Convido-o a reler o texto com um pouco mais de senso de humor hihi, meu intento é menos pregar alguma ideologia ou modelo de sociedade, do que abrir a mente de meus irmãos de fé para pensar formas de ação para além da política e das instituições visíveis. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

TECHNO RACE

Não foi via decreto governamental ou ocupação de espaços - tampouco por consientização - que uma parcela razoável da população se livrou da lavagem cerebral televisa. Foi devido a internet. O surgimento de uma alternativa técnica que proporcionava maior grau de liberdade aos criadores de conteúdo e aos consumidores fez do mundo um lugar melhor... ao menos para alguns: enquanto há aqueles que usam da internet para estudar filosofia e religião ou simplesmente para se divertir jogando e assistindo animes de garotas fofas, outros se afundam em pornografia e perdem tempo com fofocas, discussão e maledicência.Sinto muito pelos apenados, mas a escolha foi deles.

Todavia, já faz algum tempo desde os primórdios da internet e essa joça não é mais a mesma. Os governos estendem seus tentáculos tirânicos afim de controlar a anarquia digital, com o auxílio das bigtechs. As massas se agitam inultimente no afã de encontrar alguma solução política, não só para isso mas para uma série de problemas que afligem esta civilização decrépita. Julgo eu coisa inútil. Melhoras que dependem de algum tipo de engajamento coletivo em instituições oficiais tem o infeliz costume de fracassar. Na esfera temporal, vejo eu uma única saída: a técnica. Tal qual ocorreu outrora, é preciso desenvolver alternativas tecnóligicas que garantam algum grau de liberdade ao usuário, em velocidade tamanha que tão logo as elites iníquas que nos governam tenham adquirido o domínimo da mesma técnica, possamos já estar em outro barco. Sim, é um eterno jogo de gato e rato, mas é isso ou a absoluta rendição.

De fato, nem todos recebemos do céus um talento particular para a inovação disruptiva. Gênios são coisa rara. Mas podemos caminhar a sombra dos gigantes, ser pioneiros no uso e investigação das técnicas já hoje disponíveis. E há não pouca coisa.

Pergunto a ti caro leitor, o que lhe parece mais prudente? Sair a rua levantando cartolina implorando a políticos bobocas para preservem a sua liberdade, ou tentar vencer a corrida tecnológica?